quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Freita 2014 by Sandro Jordão

No passado dia 28 de Junho realizou-me mais uma edição do Ultra Trail da Serra da Freita (70K) e a Corrida da Freita (17K) onde o Clube Millennium (a quem desde já agradeço todo o apoio prestado) esteve presente com 5 atletas (o Miguel Cruz, o José Farinha, o Fernando Vilela, o Pedro Cordas e eu próprio) os quais lográmos estar entre os 192 que alcançaram aquele que é para mim o principal objetivo deste tipo de desafios que é chegar ao fim!

Partíramos de véspera, ao final do dia, tendo jantado e pernoitado junto ao parque de campismo do Merujal, onde chegámos por volta das 23:00 ainda a tempo de recolher os dorsais. Desta forma pudemos ter algumas horas de descanso nas tendas antes da prova, que se iniciou, após ligeiro atraso, às 05:45, já com os primeiros raios de luz a romperem um céu cinzento onde a chuva (ainda que pouco intensa) e o nevoeiro foram dominantes (uma constante ao longo da manhã). A Serra da Freita tem trilhos e caminhos muito técnicos pelo que percorrer os cerca de 70K de prova, com 4.000 metros de desnível positivo, obrigou a controlar muito bem o ritmo de corrida desde início. Se nos primeiros 18K não se senti muitas dificuldades o cenário mudou radicalmente de figura com a primeira abordagem ao rio Paivô. Mesmo percorrendo as suas margens muito cuidadosamente somente após meia dúzia de quedas (todos escorregávamos nas pedras como manteiga em pão quente sendo que alguns até iam a nado!) é que chegaria ao local do primeiro abastecimento. Esta parte de rio, juntamente com a subida do complicadíssimo trilho a quem chamaram “a Besta” já depois dos 40K, foram os obstáculos mais difíceis de suplantar. Por entre as longas subidas e descidas na Serra que se seguiriam (pudemos molhar de novo os pés nas ribeiras de Manhouce e do Agualva e nos rio Teixeira e Caima) merecem destaque as passagens pela aldeia “encantada” de Drave e pela Frecha da Mizarela com a sua imponente cascata, já mais para o final.

A tecnicidade dos trilhos, as constantes descidas ao rio, a distância e a altimetria tornam o Ultra Trail Serra da Freita uma das mais duras provas de trail em Portugal pelo que é incontornável no “currículo” de todos os amam este desporto. Por isso a todos os que não puderam ir já sabem: treinem e inscrevam-se para o ano!

Sandro Jordão, 13/07/2014

Classificações 2014

Ultra Serra da Freita 70Km

Corrida da Freita 17 Km

95º - Fernando Vilela - 14:59:19

124º - Pedro Cordas - 15:56:08

135º - Miguel Cruz - 16:23:14

142º - Sandro Jordão - 16:52:10

179º - José Farinha - 17:43:32

27º - Sandra Freita - 02:51:40

197º - António Tornada - 03:28:06

Fotos:

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5º TRAIL DO ALMONDA

clip_image002No dia 06.07.2014 realizei a minha primeira prova de Trail Running na majestosa Serra D`Aire e Candeeiros – região de Torres Novas.

A 5ª edição desta prova inseria-se no circuito nacional de Trail e foi organizada pela TurrisEspaços.

O local de início e fim da prova era o Centro Escolar da Serra d’Aire (CESA) em Pedrógão.

Marcaram presença 316 atletas, dos quais 276 atletas masculinos e 39 atletas femininos. O Clube MillenniumBCP fez-se representar por 5 atletas: Armando Lima, Paulo Caetano, Fernando Sousa, Pedro Cordas e Filipa Vilar.

Nas últimas semanas os relatos da prova eram sempre os mesmos…”muito calor”, “temperaturas de 40 graus”,”muita pedra e calhaus soltos”, “primeiros 10 kms são rolantes, os segundos são empenantes e os terceiros sacrificantes”.

Acordei as 6H, equipei-me, alimentei-me e saí ao encontro do Fernando Sousa e do Pedro Cordas com quem tinha combinado “partilhar” a viagem. Ao sair de casa verifiquei que o tempo estava enevoado e caía uma chuva miudinha. Durante toda a viagem foi este o tempo que nos acompanhou. Chegamos às 7H40 à CESA e fomos levantar os dorsais e t-shirt da prova. Regressámos ao carro para acabar de equipar e preparar as mochilas para a prova.

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A chuva começou a intensificar ao mesmo tempo que chegavam mais atletas. Tirámos as fotos da praxe para futura recordação, afinal, tanto eu como o Fernando éramos os “estreantes” nesta prova e em provas de Trail Running.

Findos os preparativos fomos para o pavilhão confraternizar com os outros atletas e posicionar-nos na zona de partida. O ambiente era de relativa descontracção, companheirismo e alguma ansiedade.

Os primeiros Kms foram a atravessar a aldeia de Pedrógão em direcção à Serra, sempre debaixo de chuva. O piso estava totalmente enlameado (em algumas zonas extremamente perigoso) e havia muitas pedras e calhaus soltos. Os pés facilmente afundavam na lama e escorregavam, por isso estive sempre alerta e abrandei o passo para não acontecer nenhuma intempérie. Em algumas zonas era praticamente impossível correr pelo tipo de terreno e pela quantidade de lama. A chuva nunca abrandou desde que iniciamos a prova, e a dada altura (aproximadamente Km 5) intensificou. Ao Km 6 encontrámos o primeiro abastecimento, onde comi uma fatia pequena de melancia que me soube muito bem. Sem grandes demoras, sigo com o Pedro e o Fernando em direcção à Serra. A aproximar-nos do Km 9 vejo a imponente Serra d`Aire.

clip_image010Até então a subida era pouco acentuada. Porém, a partir do Km 10 começaríamos uma subida de aproximadamente 5 Kms.

A inclinação do primeiro Km era “quase a pique”. A juntar a este facto, o piso estava totalmente enlameado e como tal, era necessário subir com muito cuidado pois os ténis escorregavam. Subimos “em fila indiana” apoiando pés e mãos nas rochas/pedras.

O segundo abastecimento encontrava-se ao Km 11,1 e a paisagem era de névoa pura. O abastecimento era composto por fruta (pedaços de melancia e banana), copos de água e copos de bebida isotónica.

Enquanto nos abastecíamos de fruta, aparece a Analice que fica radiante por “encontrar alguém dos trilhos” (expressão utilizada pela própria).

Em breves minutos hidratamo-nos, comemos uma peça de fruta e seguimos o caminho. Descemos umas escadas de madeira e seguimos na direcção da placa do Trail longo (é neste ponto que o trail longo e o mini trail se separam).

Ao olhar para trás vemos a Analice confusa com as indicações. O Pedro informa-a que deve seguir-nos e da mesma forma que aparece, desaparece á nossa frente no meio da vegetação. Estávamos a reiniciar a subida quando uma atleta surge a nossa frente a dizer que ia desistir e seguir pelo caminho do mini Trail pois receava a dureza da prova. Com poucas palavras (mas eficazes) convencemo-la a continuar e o que necessitasse estaríamos ali. E assim foi. Em breve também ela desapareceria no meio da vegetação (voltamos a cruzar-nos ao Km 26 e ela agradeceu a força que lhe demos para continuar).

Continuámos a subida. Nesta altura reparo que já não chove. O ar era fresco, mas “abafado” pela densidade da vegetação. A subida era aquilo que tinha ouvido dizer “interminável e extremamente íngreme”.

Caminhamos por cima de pedregulhos durante aproximadamente 4 Kms. Quanto mais subíamos mais “claro” se tornava o dia. Antes de chegarmos às antenas “atravessámos” um túnel de vegetação densa, algo que me fez recordar os trilhos da Serra da Estrela. Este foi um dos pontos do percurso que mais gostei. Sentia-me “em harmonia” com a natureza e o apoio e espírito de entre ajuda estiveram presentes ao longo da prova graças a presença do Pedro. Um casal de atletas seguia paulatinamente atrás de nós, umas vezes à frente, outras vezes atrás.

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Subida acentuada num túnel de vegetação densa

Como tudo o que sobe, desce…após esta magnificente subida, vejo um enorme estradão cheio de pedras. Já tinha ouvido falar desta descida, mas apenas “in loco” se consegue perceber a veracidade dos comentários.

Em algumas zonas era possível correr, outras não. A descida era de sensivelmente 4 Kms e o piso era marcado por muitos pedregulhos e irregularidades.

Inicialmente descemos com muito cuidado, exigindo imenso esforço dos joelhos e extrema concentração aonde se colocavam os pés, a fim de, evitar entorses. A meio da descida as irregularidades eram menores e foi possível recuperar algum tempo, “deslizando” por cima das pedras.

Perto do abastecimento dos 21 Kms torço o pé direito (exactamente da mesma forma que o torci dois meses antes) e oiço um enorme estalo. O pé torceu para fora mas voltou ao sítio. Senti uma pequena dor e pensei “está tudo lixado e ainda me faltam 10 Kms”. Mas incrivelmente não aconteceu nada. Parei no abastecimento, verifiquei se estava tudo bem, pulei, não havia dor…por isso…”move on”.

Neste abastecimento cruzámo-nos com o casal de atletas que “nos seguiam” e encontrámos outros dois atletas que seguiam um pouco à nossa frente. Não éramos os últimos, mas éramos dos últimos. A boa disposição e simpatia reinava entre atletas e membros da organização/voluntários dos postos de abastecimento.

Retomámos a marcha e subimos cerca de 2,5 km num trilho largo de pedras até chegar à última descida. A longa descida do Km 22 foi para mim o ponto alto deste Trail.

Um single track fabuloso, com diferentes tipos de vegetação e uma palete de cores estonteante. A vegetação cerrada envolvia-nos e guiava-nos. Uma descida que se prolongava por várias centenas de metros onde haviam muitas pedras (algumas soltas). Em condições normais seria perfeito para “voar” tipo Lara Croft, porém, nos kms iniciais a lama fazia-nos deslizar e por isso tivemos de descer com um pouco mais de cuidado e atenção. Ora apoiava os pés nas pedras, ora me agarrava às árvores.

A partir do Km 24 o piso já era duro e seco e foi possível “voar” mais facilmente “encaixando” sempre os pés com segurança. Foi nesta descida que senti “um pico de adrenalina” percorrer o meu corpo. Os olhos focavam o chão, os pés deslizavam sobre as pedras, a concentração era máxima, e o corpo rodopiava no ar.

clip_image016No final desta descida encontramos a atleta que tínhamos convencido a não desistir, a tirar fotos a um grupo de atletas. Ouvimo-la agradecer-nos e “a grande velocidade” atravessamos a Cova do Morto rumo ao último abastecimento em prova (Km 26).

Nesta altura sinto que o meu corpo requer algum alimento/nutriente em específico, mas como não consigo identificar qual é, opto por me hidratar apenas.

A pedreira que atravessámos nos últimos 3 Kms de prova foi, para mim, o mais difícil. Primeiro porque desde o Km 25 sentia alguma indisposição, e segundo, porque o sol começou a abrir com alguma intensidade e nesta zona em particular “criava um efeito de estufa”.

Ao aproximar da vila o corpo não conseguia aumentar o ritmo de corrida, pelo contrário, sentia que aqueles quilómetros pesavam a cada passo que dava. Nem a última descida já a vislumbrar a torre da igreja me conseguiu “despertar”. Ao virar em direcção à CESA, um grupo de jovens, membros da organização, brindam-nos com o “força”, “está quase”. Vejo o insuflável vermelho ao fundo. A cabeça dizia “está quase”, as pernas continuavam firmes, mas a falta de “algo” não permitia mais.

A poucos metros da meta o Rui Faria vê-nos e incentiva-nos, e talvez, motivada por “esta frescura” consigo fazer um mini sprint. Soube terrivelmente bem descobrir que afinal ainda tinha uma reserva pequena de força para aqueles metros. Atravessei a meta com um sorriso enorme, com um ar de frescura como se não tivesse percorrido 30 Kms, com o sentimento de dever cumprido, de realização pós-recuperação e ao lado do meu grande apoio que me prometeu desde início ter um objetivo apenas: “levar-me a terminar a prova”.

Da prova tenho de comentar a visibilidade das marcações, a existência de 6 abastecimentos (cada 5-6 kms), a simpatia dos atletas e dos voluntários, bem como, da organização. De referir que nos abastecimentos havia água e fruta suficiente porém considero que a partir do Km 15 deveria haver outro tipo de alimentos mais energéticos para os atletas. Haviam umas barras de cereais apenas no Km 26.

Em jeito de conclusão e reflexão, a Serra d`Aire é linda, árida, com uma vegetação densa, caracterizada pela dureza dos seus caminhos, carregadinhos de pedra e calhau. Terminei a prova numa lástima…ou seja, ténis e parte de trás das pernas com lama…mas trail running é isto mesmo.

De forma muito simples e ingénua pois sou uma novata nestas andanças, é este o meu apontamento. O meu objetivo no Trail do Almonda era chegar ao fim sem lesões. E cheguei ao fim sim, acompanhada pelo Pedro Cordas, sem lesões significativas e feliz por esta superação física/recuperação de saúde.

Os sentimentos que envolvem esta prova ainda estão muito em bruto. Foi uma experiencia única a vários níveis e que deixará marcas intensas na minha carreira de “Trail Runner”. Um dia depois sinto-me fresca, sem sinais de cansaço, sem dores, sem unhas pretas nem bolhas, e pronta para mais. O corpo não acusa os quilómetros, pelo contrário, “integrou” esta aventura como se de um passeio apenas se tratasse.

Dorsal

Nome do Atleta

Tempo

Geral

Escalão

374

Armando Lima

03:54:25

231

214/276

375

Fernando Sousa

04:53:38

301

268/276

373

Paulo Caetano

04:57:04

303

269/276

377

Filipa Vilar

05:14:08

310

36/39

376

Pedro Cordas

05:14:13

311

274/276

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Lisboa International Triathlon – 2014 by Rogério Araujo

Relato do meu primeiro Half Iron Man

Lisboa International Triathlon

3 de Maio de 2014

Ano de Half Iron Man

O ano de 2014, para mim um momento singular pela exultação de 50 anos vividos, de valorização interior de acontecimentos de uma vida passada, mas também de celebração de energias positivas capazes de ainda dar azo ao concretizar de algumas aspirações que nunca antes haviam tido condições de se expressar ou realizar e assim convertê-las num compromisso real, numa meta a atingir, num fim em si mesmo.

Entrei em 2014 com um forte desejo e empenho em me transcender mental e fisicamente.

O ano de 2014 como um ano susceptível de me fazer esquecer as dificuldades físicas por que passei em 2013 e que me inabilitaram durante vários meses.

A passagem do dia 31 de Dezembro de Janeiro marcou a assunção de um objetivo: realizar o meu primeiro Half Iron Man, no Triatlo Internacional de Lisboa, a 3 de Maio de 2014.

O evento: uma escolha natural, pelo facto de ser disputada em Lisboa, por poder partilhar a prova com a minha família e amigos, por ter uma participação massiva de atletas estrangeiros que com as suas famílias transformam a Expo num cenário desportivo inigualável, pelo incrível ambiente que se gera ao longo de tantas horas de prova.

O treino

A prova de um Half Iron Man é uma parede e o treino a arma capaz de a derrubar.

Com a ajuda da família ajustei alguns horários e rotinas da minha vida pessoal para encaixar as cargas dos treinos de maior endurance ao fim de semana.

Preparei com cuidado a minha aproximação à distância. Pesquisei e estudei planos de atletas e treinadores formulados para quem não dispõe de apoio específico de treinador e quer abordar esta prova de nível superior do Triatlo. Conversei com outros colegas e amigos que a tinham vencido antes (o Pedro Caeiro, o Humberto Lomba, o Pedro Quaresma, o Manuel Rodrigues, o Pedro Silva). Absorvi e racionalizei muita informação, incluindo sobre hidratação e nutrição (cortei alguns hábitos alimentares e reforcei outros para me permitir consumir as calorias adequadas ao esforço exigido).

Fundamentalmente nesta primeira distância do triatlo longo (Half Iron Man e Iron Man), os 3 segmentos agigantam-se (natação, bike e corrida) e obrigam a uma correta compreensão do esforço singular e acumulado e uma disciplina rigorosa na sua abordagem mental.

Concluídas as análises detalhadas de diferentes planos, de acessíveis a intermédios, entendi não ficar colado às dosagens semanais de cada segmento para ter uma maior flexibilidade pessoal e profissional e não gerar stress na impossibilidade de poder cumprir com um ou mais momentos de preparação específicos.

Decidi-me por estabelecer um cronograma com cargas moduladas mas crescentes (em microciclos e mesociclos, variando entre mais e menos carga), a cumprir em 18 semanas (incluindo a semana da prova). Variações semanais de carga, iniciadas com 5 horas e que atingiram dois picos de cerca de 12 horas, com trabalho mais intenso ao fim de semana.

Incluí nas sessões de treino trabalho de core e stretching, e algum strengthening (chamaria total conditioning, a quarta disciplina do triatlo, que é cada vez mais importante no atingir dos objetivos e na conquista de melhores resultados).

As sessões correspondentes aos dois meses iniciais foram realizadas individualmente, com os treinos longos do fim-de-semana passados no rigor das condições deste inverno e na dureza da solidão.

Nessa primeira fase o plano foi cumprido com determinação e rigor e sem angústias.

Método, organização e obediência no cumprimento são palavras a mentalizar em cada um dos dias de preparação.

Inclui duas provas de 10 kms (na banda dos 44’ e 43’) e a Meia-Maratona da Ponte 25 de Abril (concluída em 1h38’). Motivei-me neste período com a presença e companhia do Nuno Torcato.

Não descurei também a minha preparação na adaptação á alimentação diária, complementar para o treino intenso/longo e para a prova, assim como com a hidratação: o resultado do treino e da prova depende da harmonia do corpo com a quinta disciplina.

A partir do início de Março a segunda fase de treinos contou com a participação do Pedro Caeiro (e um outro amigo de ambos, o Cesário Rodrigues) nos treinos longos de bike e que muito me ajudaram a vencer a solidão das manhãs de sábado e de domingo e a progredir na intensidade e nas distâncias. O Pedro Caeiro foi também decisivo para melhorar a minha performance na natação pois permitiu-me incluir sessões conjuntas com séries que me permitiram ir baixando sucessivamente os meus tempos aos 1500 metros, conseguindo uma melhoria de resultado de cerca de 7 minutos entre Dezembro e Abril (consegui atingir 30’22’’ na distância nadada na piscina). Aproveitei intermitentemente alguns treinos do Humberto Lomba (força, spinning e piscina) que deveriam ter ocorrido mais vezes, mas a falta de tempo…

Nestes dois períodos, foi muito valiosa a experiência vivida o ano passado com o Pedro Caeiro, quando este preparava o seu primeiro Iron Man tendo-me permitido acompanhá-lo em muitas sessões de fim de semana e nas férias de verão na serra do Caldeirão com temperaturas superiores a 35ºC.

E assim, duas semanas antes da prova tinha consciência do valor do treino absorvido, de que seria mais do que bastante para concluir o evento e de que teria condições para poder exceder as melhores expectativas.

Eis quando uma alergia ao pólen após um treino nocturno provoca uma inflamação brutal das minhas vias respiratórias obrigando-me a medicação pesada (incluindo antibiótico). Na minha ida ao médico só pedi que me deixasse viver o sonho porque tanto tinha batalhado.

As noites passaram a suplício (entre as dores e garganta, a tosse e as via respiratórias obstruídas) e o efeito das drogas, incompleto pois só me resolveu as dores de garganta e rapidamente esmagou os meus músculos e quase a minha vontade.

Vivi uma véspera de dias críticos em que questionei as minhas capacidades vitais.

Na quarta-feira da semana da prova decido avançar contra todas as incertezas do meu estado físico geral. O treino estava lá certamente, mas o corpo continuava a dar-me sinais contraditórios, sem assinaláveis até ao dia da véspera, prostrando-me física e psiquicamente. Em 8 dias apenas pude encaixar 1 hora e meia de treino. A minha vontade contra a incógnita do meu corpo. A minha fé contra a adversidade dos factores não previstos.

A Prova - véspera e preparativos

Na véspera não estava melhor e apenas consegui dormir 1 hora. Entrei em modo de combate cerca da 1h30 e levantei-me pelas 4h15. Tomei um pequeno-almoço hiperreforçado de hidratos de carbono. Sentia os músculos débeis e exangues por efeito do antibiótico mas estava cada vez mais determinado em concretizar o sonho de ser Half Iron Man.

Pelas 5h30 estava à porta do Pedro Caeiro. Arrancamos para a Expo e deixamos as viaturas atrás do Casino. Pouco depois juntaram-se a nós o Manuel Rodrigues e o Miguel Cruz. Ainda era de noite quando nos dirigimos a pé em direção ao Pavilhão de Portugal onde se encontrava sediado o gabinete da organização e o parque de transição.

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Levamos as bicicletas e o restante material para junto dos locais que nos foram atribuídos.

A decisão de avançar mais cedo para o parque de transição revelou-se acertada porque a aglomeração de atletas que se verificou depois teria impedido de fazermos o warming up na água.

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Precisava muito desse momento de adaptação para testar a fluidez de respiração na água (não entrava na água à 10 dias e estava bastante tenso por causa da possibilidade de me dar tosse ou bloqueios respiratórios).

O teste correu bem mas fiquei preocupado com cãibras que me deram na planta dos pés.

O ambiente ia aquecendo. Centenas de atletas aglomeravam-se de fato de neoprene junto da zona de entrada no espelho de água do Oceanário.

O dia iluminava-se com um esplêndido céu azul. A temperatura estava elevada logo pela madrugada: (20ºC) pelas 8h00. Previam-se cerca de 30ºC por volta das 12h00 e vento forte de Este com rajadas superiores a 30kms/h a soprar toda a manhã.

As vagas de atletas para o Olímpico Plus (1), para a Guerra dos Sexos (1) e para o Half (2) iam-se formando. As toucas distinguiam a massa de corpos negros que esperavam na rampa de acesso à água. A adrenalina injectava-se no sangue. A concentração que sentia adensava-se.

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A Prova – segmento de natação, 1,9 kms

A prova começa finalmente pelas 8h15, as vagas reconhecidas pela cor das toucas posicionam-se na água e as partidas vão-se sucedendo espaçadas

O frenesim na água espalha-se pelo espelho de água. Ao nível do olhar é só espuma branca em movimento.

A última vaga com mais de 300 atletas acima de 40 anos é chamada pelos microfones da organização e vai-se posicionando na água entre as bóias de partida ocupando toda a largura do espaço.

Posiciono-me mais para trás do harmónio humano. Não queria partir rápido e precisava de anular arritmias iniciais que me viessem a dificultar a respiração. A temperatura da água estava decente. Procurei o Manuel Rodrigues e o Miguel Cruz que percebi se encontravam um pouco atrás de mim.

Apesar da excitação anulei o pensamento do tempo que previra para a prova, nem quis saber como me iria encontrar no final deste segmento. Apenas estava eu e a água.

Abstraí-me e entretanto a buzina soou. Saí tranquilo. A pulsação e respiração mantinham-se ao fim de 100 mts e consegui juntar-me a um pequeno grupo. Nadávamos lado a lado. Senti que os músculos das pernas a dar sinais preocupantes de que podem entrar em contração a qualquer momento. Preciso de controlar a situação.

Centenas de bolhas visitavam o perímetro da minha visão de cada vez que mergulhava a cabeça. A água estava castanho-esverdeada mas com meio metro de visibilidade (pensei que estaria mais opaca e densa).

A cada inspiração uma profusão de movimentos braçais e milhares de gotas no ar (uma máquina de lavar em andamento). O cenário repetia-se a cada braçada. Toques dos corpos de lado, à frente e atrás.

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Não havia espaço, mas estranhamente mantinha a concentração e já a ponte para o Oceanário estava pela frente. Entro na sua sombra e assusto-me momentaneamente quando toco com as mãos no tubo de carga/descarga que liga o edifício ao rio e que estava na horizontal a meio metro da superfície.

A primeira bóia aproxima-se. Quis evitar a confusão e contornei-a por fora perdendo algum tempo. Passo bem. A confiança instala-se enquanto contornamos o edifício em direção da segunda bóia. O coração mantém-se em batimento controlado. Vou olhando de frente para alinhar uma posição de passagem m as prefiro manter-me de fora da confusão (mais uns segundos perdidos).

No retorno, avanço pelo meio, mas fico com o sol de frente para o único lado em que respiro (o direito, uma limitação que procurarei suprir no futuro). A cada respiração o sol encandeia-me. Penso na diferença de uns óculos espelhados, mas não quero saber. Comprometo-me no andamento do pack nadadores junto e a toda a volta. Procuro ganhar espaço mas os encostos sucedem-se. Tocamo-nos em permanência: eu, no nadador da frente, o nadador de trás nos meus pés. Embates de forma consecutiva na direita e na esquerda. A determinação instala-se com o frenesim mas a competição pelo melhor espaço aumenta. Forço um pouco e ganho algumas posições.

Colo-me a meio corpo a um nadador da frente que avança sem hesitações e seguimos juntos para a terceira bóia amarela. Na proximidade um outro nadador errante faz-me perder contacto. Cruzo a bóia na tangente. Falta-me pouco mais de uma volta. Paro momentaneamente para limpar a garganta onde se acumula viscosidade. Arranco e apanho o grupo pouco depois e estamos no início da 2 e última volta.

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Somos muitos. Estou no jogo. Não vou perder ritmo. Entramos em pequenos despiques à direita e à esquerda, mas acabo por marcar o andamento. Os músculos de ambas as pernas estão no limite da cãibra. Tenho de diminuir o seu uso e ataco mais na braçada. Mas estou bem, mesmo respiratóriamente e a determinação aguça-se.

Esta volta passa-se rápido. As bóias aproximam-se como alvos de um jogo e são ultrapassadas sem hesitações. Escolho as direções mais curtas e alguns competidores vão caindo para trás do meu campo visual. Começo a pressentir que não vão existir quebras. A volta ao Oceanário começa com novo toque no tubo de descarga. Ao fim da segunda bóia o fim está mesmo ali. Nadadores ziguezagueantes atravessam-se à procura da terceira bóia e da inversão da passagem para trás junto à parede sobranceira ao Pavilhão de Portugal. Forço e passo, mas também sou passado por um ou outro. Consigo alinhar a minha direção e ajusto-me á última bóia, agora do lado esquerdo. Voltamos para trás e apontamos para a direita. Muitos nadadores acumulam-se para a saída. Encosto-me rente à parede.

A saída está tapada por um cacho de nadadores. Paro e vozes em várias línguas pedem atenção e calma. Levanto-me ainda dentro de água onde a rampa se encontra inundada. Paro o relógio e marca 36’30’’. Sorrio com a prestação do segmento. Tiro as mangas e baixo o tronco do fato de neoprene. Procuro avançar mas apenas conseguimos andar de vagar na subida da rampa. Perdemos tempo para o controlo. A primeira emoção aguarda-me no final da subida. A minha família estava mesmo junto da entrada no PT no controlo electrónico dos chips. Toco-lhes nas mãos do Afonso, da Margarida e da minha mulher e sorrio-lhes enquanto eles irradiam satisfação por me verem. Ganho uma força interior única.

A Prova – segmento de bike, 90 kms

Entro no parque emocionado. Procuro o meu corredor situado entre as duas primeiras bandeiras. Abordo a bicicleta e o cesto e tento tirar as pernas do fato mas ganho cãibras nos dois lados. Procuro estancá-las mas não consigo. Sento-me no chão. Um juiz posiciona-se atrás de mim em controlo. As cãibras continuam e a custo saco uma e depois outra perna. Ainda no chão calço as meias com dificuldade. Percebo que estou a demorar uma eternidade. Levanto-me e começo a retirar o restante equipamento do cesto. Pelo canto do olho vejo passar atrás de mim o Manuel Rodrigues. Enfio a bomba de mão no bolso traseiro do fato. Tento mas não consigo calçar as luvas o que me irrita. A falta de uma toalha compromete o meu conforto para as 3 horas de bike que me aguardam. Coloco o capacete e aperto-o e ponho em seguida os óculos. Bebo um pouco de água e agarro na bike para a saída. Passo pelo Manuel que está quase pronto.

Chego à zona de controlo e sinto o bip da ativação do chip. Mudo o segmento no meu Garmin e pressiono start. A zona de transição para montar na bike está apinhada de atletas. Gera-se uma pequena confusão com cerca de 20 atletas a querer sair ao mesmo tempo.

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O Manuel está por ali também. Consigo sair mais depressa do que a maioria. O empedrado atrapalha mas consigo meter os primeiros andamentos em segurança e ganhar ritmo.

Saio bem para o alcatrão. A passagem na zona urbana da Expo passa-se acima dos 35 kms hora. Passo vários atletas. A saída da rotunda para a via rápida em direção a Sacavém prova os piores receios. Vento forte de frente. Procuro ambientar-me ao vento e fundamentalmente ao posicionamento dos outros competidores. Conto mais de 25 em 75 mts. Preciso de cuidado para manter as distâncias regulamentares e passar / afastar-me com cuidado para não correr o risco de ser desclassificado. Percepciono as motas dos árbitros que andam por ali em aceleração e desaceleração. Olho para trás e para a frente. O vento está duro. Muito duro. Procuro manter a velocidade próximo dos 30 kms/h mas não consigo. A pulsação está nos 175 bpm. Compreendo que não posso andar naquela zona de batimento cardíaco sem pagar caro a veleidade e sem comprometer toda a prova.

Reduzo o andamento para os 25kms/h e mesmo assim está difícil progredir. Vamos andando vários atletas em relação de proximidade. Afastamo-nos e aproximamo-nos Nada se altera. Vou assinalando alguns números e concentrando-me em alguns nomes de camisolas e olhando para a via contrária onde circulam atletas no retorno. Procuro o João Lucas Coelho, o Pedro Quaresma, o Manuel Rodrigues, o Pedro Caeiro, que vou vendo passar em diferentes posições que fixo como referência para futuras voltas. Atrás de mim só o Miguel Cruz que sinto estar enfocado na prova.

A subida para Sacavém revela-se complicada pela sua duração. O vento desaparece mas o calor aperta. Recupero para alguns atletas que demonstram sentir a adversidade. No ponto de retorno sinto-me bem mas reconheço que ainda tenho mais três passagens contra o vento (que iria aumentar de intensidade) e respetivas subidas.

A volta possibilita-me compreender que não desço rápido apesar do vento soprar a favor. O defict de peso não me permite grandes velocidades e sinto também a vantagem em me proteger. Falta muita prova. Muitas incógnitas.

Vou aproveitando para assimilar o percurso e ajustar as pulsações: agora abaixo das 160. Começo a gestão dos recursos energéticos e lembro-me de tudo o que li e ouvi: é na bike que se ganha a corrida. Não desgastar demasiado, hidratar e comer bem. O Eduardo Ferreira deu-me o mote por causa das cãibras: comer o máximo que puder.

Começo a comer de 20’ em 20’: gel e barra energética, entremeado com água isotónica e bebida energética. Espaço para as 2 bananas que levei e para as metades que fui apanhando no único ponto de abastecimento junto à rotunda de saída para o PT.

De regresso à segunda volta começo a sentir o efeito do vento e a temperatura. Acerto o ritmo para uma média um pouco cima dos 30 kms/h.

A meio da ida, apercebo-me que está um atleta no chão do outro lado da via com uma equipa de primeiros socorros.

Vou aguentando a minha posição relativa para os mesmos adversários e ajusto-me ao andamento de um atleta espanhol que me serviu de referência durante esta e a terceira volta.

No retorno da segunda volta, no túnel próximo da Expo, sinto uma quebra forte: um desfalecer, quase desmaio. Demoro 2 ou 3 kms a recompor-me e penso que não posso voltar a experimentar o mesmo sob pena de desmoralizar quando ainda faltam cerca de 2/3 da prova.

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Na terceira volta recomponho-me mas o vento está mais forte do que nunca e as pernas começam a doer fortemente, assim como a costura da minha inguinal. Procuro massaja-las e descontrair-me ainda mais no retorno. Já levo mais de 2 horas na bike. O estômago começa a doer num velho ponto de sensibilidade. O efeito acidificante do açúcar não deve ajudar assim como algum excesso de água simples bebida de uma só vez. Não me apetece comer mais mas obrigo-me a fazê-lo de forma mais lenta. Completo mais esta volta mas já com andamento inferior a 29kms/h.

Chego à derradeira volta.

No controlo que fiz dos meus companheiros percebo que o João Lucas Coelho parece um avião, ganhando kms a cada volta; o Manuel Rodrigues consolida o que me parece meia volta de avanço (as suas capacidades inatas para este segmento e a bike nova não dão quaisquer hipóteses)

Junto ao posto de apoio, largo um dos meus bidons de hidratação e apanho um da organização com água. Bebo novamente demais e o estômago já frágil acusa cãibras e a quase regurgitação a seco.

Procuro descontrair-me e concentrar-me em quem passa em sentido contrario. Quando entro na via-rápida dá-se a quebra do meu companheiro espanhol que mantive tanto tempo marcado á zona. Passo-o contra o vento inclemente e o momento ajuda-me a um reforço de confiança.

Sinto que consigo gerir a energia que ainda disponho para pelo menos acreditar que posso correr o último segmento e que para isso devo continuar a alimentar-me e a hidratar-me apesar das dores entre o esófago e o estômago começarem a ser insuportáveis.

O vento assobia mais nas orelhas e nas entradas do capacete. O drop de velocidade é agora maior já que não consigo manter a intensidade. È contra natura resistir-lhe nesta fase. Mas parece-me que a competição à minha volta sente o mesmo. Não só eu.

Arreganho-me para a última subida, mas agora somos menos em proximidade e o esforço nada me rende. O desgaste acentua-se. O regresso é feito em piloto automático. Poupo-me como posso. Percebo que não conseguirei fazer 30km/h de média mas não andarei muito longe. Alimento-me com o que ainda sobra na bolsa que tenho presa à minha frente na bike: um gel e meia barra energética. Dói-me a boca do estômago como dedo polegar perfurando o espaço por fora.

Olho para o céu e sinto a força da minha vida. Sinto que apesar dos músculos quebrados e cansados e da respiração contraída e forçada, que o sonho, antes quase arruinado, começa a tomar forma na estrada que ainda me falta galgar. O tempo dedicado a tanto treino, está a capacitar-me para remediar as fragilidades que me arredaram de estar presente nesta disputa quase épica, com os outros e dentro de mim.

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Sinto o resultado do treino. Capacito-me que o treino ganha sempre, a prova é só um momento em que o atleta entrega o que construiu. Como tudo na vida, a dor, o esforço, a entrega, a persistência e o sofrimento que colocamos em tudo o que fazemos são os verdadeiros constituintes da conquista, da vitória, do sucesso. Mas a visão do sonho só se tem em plena prova. Quando sentimos a mente e o corpo em uníssono a responder com o que lhe entregámos antes. Sinto uma grande exultação interior. O fim é ainda uma incógnita mas ainda me restam energias para correr os 21 kms que me aguardam.

Aproximo-me da transição do segundo segmento e dos meus e não estou vencido. Chegou a altura de enfrentar a dureza do que me resta de faca nos dentes. De não jazer perante a exaustão por maior que ela venha a ser.

A Prova – segmento de corrida, 21 kms

Ao chegar á zona de controlo junto do PT oiço uma voz e surpreendo-me com o Américo a que me incentiva a plenos pulmões. Nem imagino ainda como a sua presença, o seu apoio e contributo constante nas 4 voltas que me faltam de corrida farão tanta diferença.

Entro no pavilhão com parcimónia.

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Procuro o meu cesto. A sombra é uma dádiva. Baixa-me a temperatura corporal e consigo um oásis de descanso. Pouso a bicicleta de acordo com as regras, retiro o capacete. Sento-me para trocar de sapatos, tenho uma cãibra. Asseguro-me que coloco o chapéu-de-sol assim que me levanto. Bebo água e ponho á cintura o meu cinto com 6 géis, 3 para cada hora. Não tenho vontade de comer e arranco para a saída. Não vejo ninguém da minha família mas devem estar próximos.

O bip atesta que vou dar início ao segmento mais duro. O sol abate-se sobre o corpo. Pesado. Quase triunfal. Sinto o calor a castigar os braços e o quente no peito. Entro no circuito como para uma arena. O chão exala o poder do sol.

Vários atletas passam e junto-me em linha.

Curiosamente as pernas não estão bambaleantes. Doem-me os músculos à frente, no limite da cãibra (apesar de não saber o que possa ser uma cãibra á frente) mas consigo correr direito e seguro. Fixo o andamento dos outros atletas mas estamos todos misturados. Todas as classes de idade juntas. È difícil ajustar andamentos. O primeiro km passa a 4’58’’. Apenas olho para as pulsações. O batimento cardíaco está nos 175 bpm. E sinto… muito, mas muito calor.

Preciso de baixar o ritmo cardíaco para as 160 bpm se não nunca conseguirei terminar a prova. Preciso urgentemente de me reconhecer nestas condições insuportáveis. Estão 30ºC (a sensação térmica é muito superior). Para o meu olhar o relógio regista só bater do meu coração. Recuso-me a mudar para os outros ecrãs, mesmo para controlar o tempo global ou o tempo do segmento. Vou baixando o andamento de forma progressiva mas a pulsação teima em não baixar de forma equivalente.

O terreno é muito irregular mas entro numa zona de árvores (Passeio dos Cruzados) com alguma sombra onde não cabemos todos os que circulamos nos dois sentidos mas que nos absolve momentaneamente da radiação. A prova transformou-se numa verdadeira cruzada contra a inclemência do astro solar.

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Ignoro o primeiro dos três pontos de abastecimento: não têm água e não quero mastigar nem comida sólida (bananas, laranjas ou barras energéticas) nem tenho qualquer desejo de beber Coca-Cola doce e gasosa que só me iriam debilitar e irritar mais o estômago.

Logo após vejo a minha filha, de repente, com a máquina fotográfica na mão e a emoção está lá tão forte. Entre a cumplicidade dos nossos olhares. Grito pelo seu nome e digo-lhe que “estamos a lutar; temos sempre de lutar e dar o máximo para conseguirmos ganhar o que desejamos”.

De repente o circuito inflete para o rio. Uma porta (quase um portal) de recorte artístico improvável aponta a entrada para uma língua de terra que separa o rio e o . O calor que emana do solo é quase demoníaco. Estão trinta e muitos graus naquela terra batida. Pó no ar. Sufoca-se apesar da água ali tão perto. De ambos os lados, entre o rio e a marina assoreada. Abro os olhos e encanto-me com a paisagem.

No regresso do “deserto” e após passar o “portal” encontro o Américo que me apoia como seria improvável alguém fazê-lo.

Corre um pouco ao meu lado. Digo que “está duro” mas as forças convergem. O Américo conhece-me de outras batalhas e outras guerras. O efeito desses momentos invade-me e dinamiza-me. A minha mente aguça-se. O batimento desce um pouco, aproximo-me do segundo ponto de abastecimento, este com água e agarro duas garrafas: despejo uma pela cabeça e corpo abaixo e metade da segunda. Bebo o resto com parcimónia. Mais á frente o percurso ruma para uma alameda com mais árvores. A segunda benesse. Arrefeço mais um pouco e a pulsação desce pela primeira vez ligeiramente abaixo dos 160 bcpm.

Estou quase a perfazer 4 kms. Mantenho posições e de repente surge um 3º posto que também tem água está á vista. Alguém com uma camisola do Clube Millennium bcp está por ali, a ajudar quem passa com garrafas de água. Achei o facto notável. Desculpa por não saber o teu nome mas garanto não me esquecer da tua imagem tranquila a estender a mão com a água preciosa.

Repito o procedimento e encharco-me até aos pés. A água no corpo fez toda a diferença nesta volta e agora sei como fazer nas restantes 3 ainda a completar. Moderar o andamento à passagem da meta que sai numa pequena alameda para o lado esquerdo. Vejo alguns atletas a cruzarem-na. Ainda não visualizo o meu momento mas sei que está lá se as minhas pernas não me traírem. O coração não me abandonará tenho a certeza nem a minha determinação.

Doem-me bastante os músculos das pernas. Principalmente à frente. Uma dor continua e profunda. A minha filha tira-me umas fotos em frente do Pavilhão de Portugal. Sorrio-lhe e levanto-lhe as mãos em sinal de que estamos bem, apesar de tudo.

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E logo mais à frente o Américo coloca-se a postos para mais uma corrida ao meu lado. Está mais quente. Sinto o sol a drenar a humidade do meu corpo. Decido retirar o cinto com os géis e guardar apenas dois na bolsa do meu fato de competição (reconheci que não conseguiria ingerir mais e espero que estes dois cheguem para me revitalizar o suficiente na hora e meia que falta). Quando coloco a mão na bolsa das costas percebo que afinal ainda tenho a bomba de ar da bicicleta a fazer-me companhia. Sorrio novamente e atiro uma breve gargalhada para o ar lembrando-me do episódio recente do Eduardo Ferreira no seu primeiro Half em Espanha (Iberoman) quando correu com um gel no sapato J.

Aproximo-me do Américo e peço-lhe que fique com o cinto e… com a bomba de ar! Olha para mim atónito mas acaba por entender que nem sempre dominamos os detalhes J. Corre mais um pouco ao meu lado. Sigo para a alameda onde no final se posiciona o primeiro abastecimento e ignoro novamente as ofertas de alimentos (só quero água). As jovens do apoio incentivam os atletas com gritos e gestos de incentivo e aproveito para em jeito de brincadeira lhes dizer que ainda vão ter de me ver mais 2 vezes.

Pouco depois o Américo espera-me na entrada para o “dead desert”. Novos incentivos e aí vou eu a desafiar o pó e o ressequimento da boca. Está de facto um calor dos diabos. Só quero sair dali rápido. Após o promontório encontro a minha filha e asseguro-lhe com um gesto de que estamos bem e com energia.

No entanto, passados alguns minutos e junto ao segundo reabastecimento tenho uma pequena quebra. Quase que paro. A pulsação sobe. Agarro nas garrafas de água e repito a operação. Como um gel. A segunda alameda das árvores corrige o meu equilíbrio de temperatura. No terceiro abastecimento, a segunda dose de água arrefece o termóstato corporal quase a 100%. A pulsação reverte novamente para os 160.

Concluo a segunda volta e sinto que estou quase lá. Massajo os músculos enquanto corro e reinicio a competição. À menos atletas agora mas estes eu consigo passar ou acompanhar. Ainda falta quase 1 hora. Cerro-me em mim e nos que me precedem. Não tenho dúvidas do que estou a fazer e do que me resta.

A terceira volta é a mais massacrante para o corpo mas não desarmo. Passo bastante gente, incluindo quem venha a passo. Repito todas as operações anteriores para o arrefecimento e hidratação. No 3º posto de abastecimento apercebo-me que o calor começa a provocar um forte impacto nos atletas e alguns chegam mesmo a parar.

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Muitos atletas começam a andar mesmo a espaços e incentivo alguns estrangeiros por certo surpreendidos com o braseiro que encontraram neste dia, com um Go Denmark, Go Ireland, Go Spain.

A entrada para a 4ª e última volta como o segundo gel que guardara no bolso. Estou bem. Emociono-me por todos os acontecimentos passados associados a esta preparação, pelas dificuldades físicas de 2013 e por alguns outros marcantes na minha vida.

No último abastecimento a 1 km da meta encontro a minha filha e o Américo, sorrio-lhes de felicidade e agradecimento por estarem ali. Correm a meu lado. Os meus incentivos e os deles cruzam-se e fundem-se.

Estou em equilíbrio mental e físico. Tudo se alinha para a meta onde ganharei mais um pedaço do meu mapa interior. Deus permite-nos nestas experiências esse reconhecimento do Eu. Através deste desafio confirmo e acrescento características que já exprimi pessoal e profissionalmente noutros desafios de limite extremo.

Divirjo para a meta. A sensação de ter atingido o meu compromisso deixa-me uma intensa felicidade.

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Entro na alameda e sou acolhido pela passadeira vermelha. Sinto uma serenidade imensa. O sonho a poucos metros. O olhar que se expande para o céu. A exultação de termos conquistado o nosso lugar real para substituir o sonho. A alegria de estarmos ali vencedores, num tempo e num momento irrepetíveis.

Sinto os olhos da minha filha em mim e oiço um último clamor do Américo com o meu nome.

A meta aproxima-se, a passada diminui, os braços elevam-se.

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Tudo o que fazemos e concluímos na vida, fazemos e construímos antes, para ganharmos o presente. Sempre que queremos e nos envolvemos no mais profundo de nós transformamos a incerteza do futuro na certeza do concretizamos. Em todas as perspetivas do que vivenciamos e com quem nos rodeia ou passa por nós. Quando entregamos o nosso empenho e sacrifício nunca nos traímos, nem aos outros, nem à vida e esta acabará por nos recompensar de uma forma superior.

Cortei a meta!

Aliviei os pensamentos e deixei então a comoção tomar conta de mim. O meu momento de fraqueza por ter ousado superar-me mais uma vez. Um turbilhão de imagens boas e más correm num flash. Deus sabe. Sempre!

Grava-se ali para sempre um momento especial, pleno de sensações únicas que me reservarei.

Passados 50 anos esta prenda/experiência foi um fruto colhido com sementes para o futuro.

Valeu a pena!

Quanto a vós que tiveram a paciência de ler este relato até ao fim, de permanecer comigo nesta jornada pessoal, Acreditem, Aspirem ao Vosso Melhor. A superação, sob a forma que assumir, física, psíquica, mental, espiritual, é sempre superlativa ao humano.

Desafiem-se.

Aceitem o esforço e o sacrifício no que quer que façam. Para se darem e se conhecerem ou encontrarem as vossas qualidades, o vosso caracter, os vossos talentos. O conseguimento é o espelho da vossa alma.

Eu já me desafiei, novamente.

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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Half IronMan Lisboa - 2014

O meu 1º Half IronMan by Miguel Cruz
Estou a meio caminho para o IronMan 
Depois de Sprint de Alpiarça em Fevereiro, depois do Triatlo Olímpico do Estoril em Abril, 3 meses depois, em Maio, chega o dia do meu 1º Half IronMan, no Parque das Nações.
Um   pouco   de   ansiedade,   algumas   incertezas,   perguntas   á   espera   de   resposta,   enfim,   pequenas inseguranças normais numa estreia numa prova desta envergadura.
Uma coisa era clara para mim, preciso ir com reserva e não arriscar tudo a todo o instante.
O dia começou muito cedo, despertar pelas 5h, preparo-me (já tinha tudo prontinho no carro) e ponho-me a caminho do Parque das Nações onde tinha combinado encontrar-me com os restantes atletas do CMBCP às 6h.
No  Parque  das  Nações  encontro-me  com  o  Manel  Rodrigues,  Pedro  Caeiro  e  Rogério  Araújo.  Estava  á espera  de  encontra-los  menos  ansiosos  do  que  eu  mas  enganei-me,  estavam  igualmente  ansiosos  e  um pouco nervosos, mas muito bem-dispostos e animados. Foi  com  alguma  facilidade  e  sem  qualquer  tempo  de  espera  que  cumprimos  formalidades  para  entrar  e colocar o material no parque de transição, e ainda tínhamos cerca de uma hora pela frente. Pouco depois percebi  que  é  muito  importante  chegar  com  tempo  para  estes  formalismos,  pois  a  meia  hora  da  partida ainda havia uma fila com mais de cem metros para verificações e atletas a entrar no parque de transição.
No público muitas caras conhecidas a apoiar, davam-nos naqueles momentos aquela confiança extra para arrancar.

Natação
Correu  muito  bem,  limitei-me  a  nadar  ao  meu  ritmo,  com  orientação  e  fi-lo  com  conforto  e  controlo.
Apenas  uma  peripécia  inicial,  normal  nestas  coisas,  logo  nos  primeiros  50  metros  um  atleta  deu-me  um pontapé na cara que me arrancou os óculos da cara, rapidamente colocados e toca a nadar.

1ª Transição (Natação para a Ciclismo)
Foi conforme prévia e sem falhar os passos previstos, único reparo á velocidade dos movimentos, mas isso era secundário, não queria cometer erros.

Ciclismo
Neste  segmento  algumas  novidades,  a  distância  (nunca tinha  feito  mais  de  70  km),  andamentos  e  adversidades,  estava  muito  vento  por  vezes com  rajadas  em  alguns pontos descobertos do percurso. Cada volta (4) implicava pedalar 11 km contra e 11 km com o vento nas costas e a oportunidade    de    recuperar    a    velocidade    perdida chegando  a  fazer  alguns  km  com  média  de  40  km,  mas com poucos desníveis. Ainda a rolar na bicicleta consegui
tomar  os  géis,  hidratei  bem,  mas  cometi  o  erro  de  não comer as barras que levava na bicicleta, e isso refletiu-se 2ª Transição (Ciclismo p/ Atletismo).
Tudo aconteceu com muita calma, troquei calçado, tirei o capacete e pus o chapéu para me proteger do Sol,  começo  a  correr  e  como  sempre  nesta  transição  as  pernas  e  os  pés  parecem  que  têm  molas  e funcionam com alguma falta de coordenação, mas estavam bem sem dor.


Atletismo
Como não estava muito massacrado da bicicleta, menos até do que no Estoril,  fui bem até ao km 7, vi Manel, o Quaresma, o Pedro Caeiro e o Rogério todos com palavras de incentivo e apoio para manter o ritmo e fazer as 4 voltas necessárias para completar os 21 km. Pouco depois do 7º km fiquei sem combustível, as pernas estavam bem, a respiração e batimentos cardíacos  também  mas  não  conseguia  mover  as  pernas  ao  ritmo  que  queria,  comecei  a tomar  os  géis  todos  que  tinha,  mas  como  não tinha  levado  barras  tive  de  começar  a  fazer algumas  paragens  nos  postos  de  abastecimento  para  as  baterias  das  pernas  carregarem novamente. Como não é a primeira vez que tenho de lidar com uma situação destas entrei em módulo “põe-te a andar seja como for para chegar á meta” e cheguei com mais uma boa surpresa, o Pedro Quaresma estava na meta a saudar-me na chegada. 
No final estava muito bem-disposto, em melhor estado mental e físico do que em muitas provas de trail ou estrada com distâncias mais curtas, objectivo atingido, fazer menos de 6 horas.
O ambiente do Triatlo também é especial, é diferente do Trail, do Atletismo de estrada ou do BTT, tem o seu carisma desportivo especial, e eu gosto.
Agradecimentos:
-Aos atletas do Clube MBCP da Secção do Triatlo que participaram na prova e os que não participaram, pelo
apoio nos meses de preparação antecedentes ao Half IronMan;
-Aos Colegas e Amigos que foram naquele dia de propósito ao Parque das Nações, ficaram até bem tarde,
só para nos apoiar;
-Ao Clube MillenniumBCP.
Agora que completei o Half IronMan sei que um IronMan está mais perto, quem sabe em 2015.
Miguel Cruz
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Triatlo Olímpico by Bruno Vaz

Estreia no Triatlo de Lisboa e na distância olímpica. Para mim o grande desafio passava por triplicar a distância de natação já que até à data só tinha efetuado um máximo de 350 metros em provas de super-sprint.

Com bastante receio de não conseguir concluir os 950 metros a nadar e porque não tinha tido a melhores sensações no segmento de natação em Alpiarça, resolvi nas semanas antes, insistir no treino de natação. Experimentei alguns fatos neopreno na piscina do ginásio, fui nadar para a praia da torre e fiz alguns exercícios de reforço muscular para os ombros. Comentei os meus receios por diversas vezes com colegas mais experientes, que com muita paciência me iam animando e sossegando com a indicação que esta seria a melhor prova para a estreia dado que a natação é efectuada numa zona sem corrente e de água salgada.

Chegado o dia da prova com duas noites de véspera mal dormidas e algum aperto no estômago, rumei juntamente com o melhor apoio que como pai posso ter, a minha filha.

Chegados à Expo, foi deixar o equipamento nazona de transição, cumprimentar alguns colegas e conhecidos. Sempre com o tema da natação da cabeça mas confiante para os segmentos de ciclismo e corrida, pois já tinha experiencia em concluir as distâncias desses segmentos.

Contrariamente aos meus receios, o segmento de natação correu bem, sem incidentes e esforço que comprometesse a restante prova,ficando os níveis de confiança em alta.

Com as palavras de apoio da minha “claque” o ânimo estava em alta e arranquei para o segmento de ciclismo com bastante à-vontade. Tanta confiança que mal entrei no empedrado sinto o capacete a cair da cabeça pelo trepidar da bicicleta, retiro a mão direita do guiador para ajustar o aperto e quando dou por mim, estou estatelado no chão e embato num bloco de cimento. Rapidamente me levanto, vejo que tenho algumas escoriações no ombro, mas como me consigo mexer não me preocupo.

Levanto a bicicleta, verifico que o guiador e a manete direita estão desalinhados e a corrente está encravada. Endireito a manete, não consigo endireitar o guiador, mas consigo desencravar a corrente e verifico que tenho condições para prosseguir e tentar concluir os 45km da melhor maneira. Ando uns metros e oiço barulho de coisas a cair e penso “já foste”! Paro e verifico que tinham sido as garrafas de Co2 que caíram.

Recolhidas as respectivas foi pedalar os 45km com o guiador de “esguelha” e contra um vento fortíssimo que se fazia sentir no sentido norte do percurso, revelando-se a maior dificuldade para superar este segmento.

Antes de concluir o ciclismo e como não sabia bem como é que o corpo ia reagir à transição para a corrida, optei por reforçar com um gel e bebi o resto do bidon para não ter nenhuma quebra de forças.Arranco para a corrida e começo a sentir dores nas pernas onde não é hábito, mas resolvo não dar importância e gerir antes o andamento para concluir a prova. Neste segmento, para além do vento forte sentido no ciclismo, o aumento da temperatura veio adicionar dificuldades acrescidas. Com apoio da minha filha e de alguns colegas que assistiam á prova consegui alguma força adicional para aumentar o ritmo e concluir este segmento em 50 minutos o que, para as minhas previsões, se revelou um excelente tempo. Na meta lá estava a minha filha para me dar os merecidos parabéns e “autorização” para subida de escalão, pois já posso fazer as provas maiores, segundo a perspetiva dela.No final avaliei o resultado da queda e consegui perceber porque é que na corrida me doíam os músculos. Tinha alguns hematomas e escoriações nas ancas, pernas, ombro esquerdo e uma fissura no pé esquerdo.

Venha o próximo desafio...

domingo, 1 de junho de 2014

UTSM - ULTRA TRAIL SÃO MAMEDE – 100 KM - 2014

UTSM - ULTRA TRAIL SÃO MAMEDE – 100 KM - A primeira três dígitos…
O trail levou-nos a Portalegre, ao Ultra Trail de São Mamede, para mais uma das etapas do circuito nacional de trail organizado pela ATRP (Associação de Trail Running de Portugal), durante o fim de semana 1300 atletas participaram em três provas:
- 100 kms (D+3500M) – UTSM - partida às 0h00 de Sábado de Portalegre
· Prova a contar para o Circuito Nacional de Ultra Trail;
· Prova de apuramento do Campeão de Portugal de Ultra Trail;
· Prova qualificativa para o Ultra Trail du Mont-Blanc;
- 42 kms – TLSM - partida às 09h00 de Sábado da vila de Marvão;
- 25 kms – TCSM - partida às 10h00 de Sábado da vila de Castelo de Vide;
O Clube Millenniumbcp esteve presente com 10 atletas, todos na prova de 100 kms. Vou tentar relatar o que foi para mim essa prova, tentar porque tudo o que diga ou escreva nunca vai conseguir transmitir a totalidade do que senti durante o UTSM…
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Na partida estiveram cerca de 700 “trailers” (de várias nacionalidades) para fazer 100 kms numa das regiões mais bonitas do país, o Parque Natural da Serra de São Mamede. A organização decidiu (e muito bem!) criar um espaço de convívio na zona da partida, um estádio de futebol com pista de tartan: muito bom ambiente! A ideia de fazerem um concerto até perto da hora da partida foi excelente!


Foi a primeira vez que fiz uma prova de 100 kms (na realidade 102,5 kms)…portanto, para mim, tudo era novidade…e acreditem, o primeiro km de uma prova desta distância é completamente diferente do km inicial de uma de 25…
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Só a partida à meia-noite muda logo tudo: vermos cerca de 700 almas de frontal na cabeça a evoluir pelos montes alentejanos é de uma beleza fantástica…quase que nos esquecemos que vamos lá no meio, mas vamos, e é para isso que aqui estamos e treinámos.
Esta era uma prova que eu queria muito fazer pela aventura em si, por ser natural de Portalegre e pelo prazer de testar limites; mas que quase acabava nas subidas ao Parque Eólico por um erro de “menino”. Eu que sempre aconselho toda a gente a alimentar-se e a hidratar-se bem, cometi a proeza de não me “reforçar” antes das subiditas - cerca de 14kms a subir dos 400m até à altitude de 1025m, com percentagens de inclinação bastante elevadas! Lá consegui colar-me ao Veloso que passou por mim e rebocou até às Antenas, no alto de São Mamede.
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No PAC (zona de assistência) das Antenas acabei por alimentar-me bem e voltar novamente à minha estratégia alimentar (estamos com 30kms) - ficou o aviso para o futuro - aí encontrámos mais alguns elementos da equipa e fomos em ”formação cerrada” o que me ajudou bastante, pois foi uma excelente forma de avançar e recuperar o ritmo. Fomos assim até São Julião (40kms), com um excelente andamento, acreditem que naquelas encostas deixámos marca!
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Nas subidas após São Julião, senti-me extremamente bem (a alimentação em mim faz toda a diferença!) - subo sempre a um bom ritmo e a puxar. Temos uma visão fantástica de Marvão e de Espanha. Alguns de nós vêm com um ritmo mais forte e até ao Porto de Espada acabamos por nos dispersar, reencontramo-nos no PAC do Porto da Espada já com as bifanas à frente. Estamos com 50 kms.
Do Porto de Espada até Marvão temos algumas descidas e depois atacamos a subida até à vila. Sinto-me muito bem a subir e vou passando outros concorrentes! Subimos pela calçada medieval da Abegoa, que nos leva até perto da muralha, mas depois descemos e subimos e descemos e subimos e descemos e subimos…e lá acabamos por entrar no castelo pela Porta de Ródão. Km 60. Marvão é a zona de assistência onde se encontram os nossos sacos para as mudas de roupa e afins, sacos que previamente tínhamos entregue na zona de partida e que a organização transportou. Reponho a comida, aligeiro o equipamento porque íamos ter tempo quente pela frente, retiro da mochila de prova coisas que não vou necessitar, ponho protetor e estou pronto para partir sem perder muito tempo. Não me preocupo minimamente com os pés – tenho outro par de sapatos no saco e vários pares de meias, mas não achei necessário fazer a mudança pois sentia-me bem, sem qualquer dor ou desconforto, mais tarde irei pagar caro esse erro, foi uma lição dura! Como uma sopa, umas frutas frescas e uns frutos secos. Estou bem fisicamente e não me sinto cansado, arranco.
Descemos pela calçada medieval que vai ter à Portagem e seguimos para as Carreiras, pelo meio molhamos o pé no Sever e atravessamos um campo de golfe que se encontra ao abandono (uma pena…). Fazemos uma boa parte da subida para as Carreiras no alcatrão, aqui começo a ter os primeiros sinais que algo não está bem com os pés…continuo e acabo por colar a dois atletas. Eu e outro dos atletas acabamos por ir juntos até às Carreiras. Quando cheguei à aldeia levava um desconforto muito grande, mas tolerável. 70 kms.
A partir daqui mudou tudo! As dores foram aumentando e o desconforto era cada vez maior, e tornou-se quase impossível correr (eu com o problemas nos pés e o outro atleta com um problema no joelho). Mesmo a “andar” conseguimos imprimir um ritmo sempre forte e começámos a gerir os esforços como uma equipa para chegar ao fim. O calor foi aumentado gradualmente.
Em Castelo de Vide descansámos um pouco mais. Mais uma vez chegámos lá através de uma calçada medieval, andámos por rochas de granito, descemos por cordas…com o calor e com os pés “cozidos”, podem imaginar! No PAC nem quis tirar os sapatos com receio de já não os conseguir calçar. Cerca de 80kms.
Vamos na direção do Convento da Provença, nesta altura eu mal consigo apoiar os pés no chão, acabo por ter de parar e tirar os sapatos; os pés estão uma lástima…mudo para umas meias curtas e secas que trazia na mochila e continuamos. Não melhorou quase nada. A cerca de 2 kms do PAC peço ao outro atleta para seguir sozinho, eu só ia a atrasá-lo – quase tive de lhe atirar pedras para ele se ir embora…obrigado! – e prometi-lhe que não desistia. No meio disto tudo mudo o chip, esqueço os tempos de prova e oriento-me pelo Sol, só queria chegar antes do pôr-do –Sol! A energia que a Lua cheia me deu à noite teria que durar para chegar antes do Sol se pôr. Acabei por me arrastar até ao Convento da Provença onde estava o penúltimo PAC…90kms. Recebo tratamento médico – os massagistas/enfermeiros de uma das equipas da frente estavam lá para acompanhar os últimos atletas deles…ajudam-me. Limpam o melhor que podem a planta dos pés e enfaixam-nas de forma a tornar o mais confortável possível os kms que me faltam até à meta. Demoro tempo. Como pizza. Aqui acabo por encontrar uma atleta que conheço e que também vinha com problemas nos pés desde Marvão, pelo menos…
Eu e essa atleta partimos juntos em direção à Serra da Penha…ela é um poço de energia condensado em meio palmo de mulher! Sigo com ela até perto das rochas que suportam a cruz, depois peço-lhe para seguir sozinha para eu não a atrasar. Lá chego ao PAC da Penha. Mais uma vez demoro na assistência. Desço as escadas, 270, uma a uma, muito lentamente, cada vez que pouso o pé parece que a sola entra pela carne adentro. Acabo por me arrastar durante 5kms até ao estádio onde consigo cortar a meta ainda com o Sol no céu, tinha conseguido o único objetivo a que podia almejar depois do que me aconteceu…para além de terminar a prova!!! – todos os que passaram por mim nesta parte final do trajeto tentaram rebocar-me no bom espírito do trail…
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Em jeito de conclusão, esta foi uma prova bastante difícil! Muito dura! Pela distância, pelas subidas, pelo calor, foi uma prova de superação! Dos 702 concorrentes que iniciaram a prova apenas 430 terminaram, entre eles estavam todos os “Millennium” - como várias vezes ouvi às pessoas que nos apoiaram e aplaudiram por onde passámos, sempre com um “força” ou “vai” antes do nome.
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Como prémio “finisher” recebemos uma medalha de cortiça (uma matéria prima muito comum e importante na região) alusiva ao feito…100 km!! A minha primeira três dígitos!
Aos meus companheiros de jornada, iria já amanhã fazer outra prova com vocês!
Os meus parabéns, juntos fomos fortes!
Um abraço a todos!
Pedro Cordas
Altimetria da prova:
As classificações foram as seguintes:
189 Miguel Cruz 17:39:27
234 Fernando Rodrigues 18:42:39
276 Pedro Cordas 19:40:44
302 Eduardo Rodrigues 19:59:18
303 Pedro Neves 19:59:25
304 Helder Baptista 20:00:06
339 José Farinha 20:40:42
340 António Veloso 20:40:48
341 Rui Ramalho 20:40:49
384 Sandro Jordão 22:03:35

Fotos e vídeos:
http://www.youtube.com/watch?v=8SOtLS5PvxU
https://picasaweb.google.com/112783433689578180526/TrailDeSaoMamede118DeMaioDe2014?authuser=0&authkey=Gv1sRgCLXJ2szlu--wiAE&feat=directlink
https://picasaweb.google.com/112783433689578180526/TrailDePortalegre218DeMaioDe2014?authuser=0&authkey=Gv1sRgCImL-rPnneG9vAE&feat=directlink
https://plus.google.com/photos/109215449995288364783/albums/6014691346297986113#photos/109215449995288364783/albums/6014691346297986113


Relato Sandro Jordão

Portalegre, 17 de Maio de 2014, 00:00. Lua cheia. 570 corajosos na linha de partida. Entre eles muitos amigos. Das Caldas e arredores vieram os primos Paulo e Rui Santos, o Ricardo Diez, o Zé Duarte, os manos Serrazina, o Luís Nunes, o Marcus, o Telmo, o Cadima, o Carlos Alegre e o Hugo Barqueiro. Do Clube Millennium BCP uma equipa de luxo composta pelo Pedro Cordas, o Alcides, o Miguel, o Veloso, o Hélder, o Rui Ramalho, o Eduardo Rodrigues, o Pedro Neves e o Farinha, a que se juntaram o João Figueiredo. Escusado será dizer que TODOS terminaram a prova, o que representa mais um grande resultado para o Clube Millennium BCP.
A adrenalina de ir correr cento e picos quilómetros por caminhos, trilhos e estradas do Parque Natural da Serra de São Mamede, com passagem por Marvão e Castelo de Vide, impede que o sono se manifeste em mais do que 2 ou 3 bocejos passageiros, pese embora não ter dormido nada durante a tarde/noite. O concerto que está a decorrer (uma competente banda de covers de Pink Floyd) também ajuda. Por esta altura nem nas minhas piores previsões poderia supor que só passadas 22 horas é que voltaria a pisar o tartan da pista do Estádio dos Assentos mas… vamos por partes.
Começo lento até ao Reguengo no meio de um pelotão compacto que avança aos soluços por entre passagens estreitas e cursos de água. Está muita poeira no ar e uma temperatura elevada para a hora, cerca de 16 graus. No primeiro abastecimento bebo um café, como uma boleima e sigo com o Paulo Santos rumo ao Alegrete. Começo a sentir azia mas uma pastilha resolve o problema de imediato. É agora possível rolar um pouco mais e acelero encontrando pela 1.ª vez o pessoal do Clube Millennium que se vinha agrupando sob a liderança do Rui Ramalho. Vem aí a subida até ao alto de São Mamede cujo topo (1.015 metros de altitude) atingimos um pouco antes das 05:00. 30K já estavam e sentia-me bem tendo seguido com o Miguel e o Hélder até São Julião. Avistámos um atleta no chão enrolado na manta térmica (um item indispensável pois nunca sabemos quando é que nos pode calhar um azar semelhante) e certificámos-nos que ficava bem antes de continuar. Foi apenas um entre 157 participantes que acabaram por ter desistir o que atesta bem a dureza do percurso. Entretanto esfriara um pouco (finalmente!) mas seria sol de pouca dura até porque o astro em causa nasceu precisamente na chegada ao abastecimento, eram 06:15. Pela primeira vez senti necessidade de me sentar (a partir daqui aconteceria em todos os abastecimentos) e ao invés de seguir com o Miguel (que nunca mais veria) e o Hélder (que viríamos a incorporar no pelotão passado um pouco pois abrandara devido ao sono) optei por descansar e aguardar pela chegada do resto da equipa. Fomos em bom ritmo até ao Porto da Espada onde nos mimaram com bifanas. Foi uma etapa desportiva mas também cultural pois o Pedro Cordas, natural da zona, foi-nos contando tudo sobre as paisagens que nos rodeavam, obrigado. 50K já estavam mas o próximo objetivo era ambicioso: chegar a Marvão numa altura em que o calor começava a apertar. É por esta altura que encontramos a Mafalda Faria, ainda com muita energia e boa disposição. Não sei se foi da bifana mas voltei a acelerar nesta fase. A fuga ainda durou meia dúzia de quilómetros mas aos poucos fui baixando o ritmo. O Pedro foi o primeiro a passar-me e foi a custo que consegui acompanhar o Eduardo e o Alcides na interminável subida ao castelo. Foram muitas as vezes em que estando a centímetros da muralha voltávamos a descer para depois realizar nova subida mas lá entramos finalmente no castelo pela Porta de Rodão.
61K em pouco mais de 10 horas era um feito mas o cansaço acumulado já era mais do que o desejado pelo que o pior estava mesmo para vir. Em Marvão tivemos a possibilidade de trocar de roupa e foi o que fiz (chapéu, t-shirt, meias e sapatilhas). Descansei. Coloquei protetor solar e vaselina. Descansei. Comi uma sopa e batatas fritas. Descansei. E com isto foram mais de 40 minutos parado! Os 10km seguintes trouxeram uma descida em calçada romana até Portagem que deu cabo do que restava dos meus pés e começaram a formar-se bolhas em catadupa. O calor intenso (32 graus) propiciou o surgimento das primeiras assaduras. Não valeu de nada a troca de sapatilhas e se pudesse voltar atrás não trocava.
Se até ao abastecimento em Carreiras já caminhava muito mais do que corria a partir daí não mais voltei a correr. Foram 9 longas horas para fazer pouco mais de 30K em que fui ultrapassado por dezenas de atletas, nomeadamente o Telmo (que ia muito bem) isto já depois de termos passado perto de Castelo de Vide (a chegada ao abastecimento entre rochas e com recurso a cordas foi penoso). Aos 83K, quando já estava a desidratar num abastecimento intermédio, fui “rebocado” pelo Paulo Santos que solidariamente caminhou comigo quase até aos 90K, obrigado. Tive de lhe prometer que não desistia e lá foi ele, tendo chegado à meta à hora de jantar. Entretanto acabou a bateria do relógio GPS. Também já tinha perdido a cábula com a distância e altimetria do percurso. Paciência, para a frente é que era caminho, mesmo que fosse a 3 quilómetros por hora. No abastecimento do Convento da Provença, onde comi pizza, fui apanhado pelo último grupo do Clube Millennium composto pelo Rui Ramalho, o Farinha e o Veloso e ainda tentei seguir com eles mas mesmo estando eles também a caminhar como eu a diferença na passada era brutal e rapidamente os perdi de vista. Algum alcatrão depois e após muitas deambulações pela Serra da Penha chego ainda de dia ao último abastecimento (Ermida da Penha). Está lá alguém deitado no chão e enroscado numa manta naquilo que parecia ser uma bela soneca. Aproximei-me e era o Telmo mas não estava a dormir, estava era a ver se conseguia recuperar de uma indisposição que trazia à vários quilómetros atrás. Não aguentava nada no estomago. Queria vir comigo mas não conseguia, só vomitava. Eu só por ver comecei também a ficar mal disposto e quase tive uma quebra de tensão. Benditos pacotes de açúcar que trago sempre comigo. Desistir é dificílimo (eu nunca consegui tomar essa decisão e já tive ocasiões em seria sem dúvida o mais acertado a fazer) ainda mais quando já se percorreram quase 100K pelo que compreendi perfeitamente a relutância do Telmo mas no fim lá o convencemos, eu e o pessoal da organização, a tomar a penosa mas sem dúvida acertada decisão. Passam 2 minutos das 20:00 e continuo. Seguiram-se 270 degraus de escadas e um interminável percurso de alcatrão. Recebo várias chamadas de amigos que estranharam ainda não ter chegado mas descansei-os. Ei-de cortar a meta nem que seja às 23:59. Cai a noite e recoloco o frontal. No chão leio indicações de que faltam 4K. Depois 3K, 2K e finalmente 1K. Não sei se foi imaginação minha mas sou capaz de jurar que vi escrita mais de uma vez a indicação do último quilómetro. Cada vez que passava por alguém da organização perguntava quanto faltava. Eles apoiavam (e muito) mas a resposta nunca me agradava, a última falava em 400 metros e eu sempre a sentir que estava a fazer muito mais. Estar supostamente tão perto e não ver o estádio ainda me impacientava mais. Não consigo descrever em palavras o quão exausto estava naqueles metros finais mas eis que finalmente vejo o estádio e a Celina, à entrada, à minha espera. Estou radiante. Faço um esforço final para dar a volta de honra ao estádio e, pasme-se, ainda corro nos últimos 20 metros antes de cortar a meta onde me esperavam a Ana, o Paulo, o Rui, o Diez, o Cadima e o Stefan.
Terminei a prova por pura teimosia. Sou resiliente e nunca duvidei que seria finisher independentemente estar completamente “feito num oito” desde os 70K. Faltou-me arte e engenho para gerir 100K mas retirei daqui bastantes ilações para o futuro. O UTSM, cuja organização foi irrepreensível, foi mais uma etapa rumo ao objetivo das 100 milhas. Haja pernas que a vontade é inquebrantável!





ULTRA TRAIL DE S. MAMEDE  2014  - 100 km  by António Veloso

Realizou-se no passado Fim de Semana de 17 de Maio,  o Ultra-Trail da Serra de São Mamede ( UTSM ), prova organizada pelo  Atletismo Clube de Portalegre e com a colaboração dos municípios de Portalegre, Castelo de Vide e Marvão e de diversas entidades e associações.

Prova com interesse relevante dado que se tratava de uma PROVA QUALIFICATIVA PARA O THE NORTH FACE® ULTRA-TRAIL DU MONT-BLANC® 

Todos os atletas que se classificassem no Ultra-Trail da Serra de São Mamede recebiam 3 pontos para o registo na edição de 2015 do UTMB.
Esta prova contava ainda para  O CIRCUITO NACIONAL DE ULTRA TRAIL DA ASSOCIAÇÃO DE TRAIL RUNNING DE PORTUGAL

A edição de 2014 do UTSM será uma das sete provas pontuáveis para o Circuito Nacional de Ultra Trail e recebeu a classificação UT/D (Ultra Trail Difícil).
Estiveram à partida  702 atletas, a maior parte nacionais, evidentemente, mas também um bom numero de espanhóis.

Quando me propuseram escrever algumas linhas sobre esta prova fiquei na dúvida de como abordaria o tema.

Podia escrevê-la passo a passo, do Km 0 ao Km 100 ( Na verdade foram 102,5 ) ; aquilo que aconteceu nos 10 PAC’s ( Posto de Abastecimento e Controlo ) ;  que tinha começado às 00:00 do dia 17/05 – um sábado ; que foi muito difícil ; que tinha um grau de exigência muito grande ; que eram mais de 7 ou 8 “empenos” de não sei quantas centenas de metros de altura ; que estava imenso calor  –  cerca   de 30º C … … … enfim, tudo aquilo que parece muito difícil.
Mas não, não irei por aqui.
Vou  sintetizar o que foi a minha primeira prova de 3 dígitos – 100 Km.
Nunca tinha feito uma distância em Trail superior a 55 Km !!! Bom, pensei eu meses antes da prova, quem faz 55 Km  facilmente consegue correr 100 Km.
Pois é  !!! Ideia absolutamente naïf e certamente utópica .
Um prova com três dígitos é uma verdadeira prova de superação física e mental. É  atingir os limites , a luta constante para resistir, o vencer sucessivas barreiras, as metas que se conquistam Km a Km. Resumindo :  é usar a mente para gerir corretamente o corpo …   
Primeira enorme dificuldade : São Mamede inicia-se às 24H  algo que é contranatura.
Quando o corpo começa a pedir descanso, eis-nos à partida dispostos a correr uma distância que nos parece impensável ao comum dos mortais.
Os primeiros kms parecem fáceis, está ainda tudo muito fresco, com forças quanto baste para vencer as primeiras dificuldades. E elas apareceram quando começámos a subir para o Parque Eólico e depois um pouco mais à frente até às famosas Antenas. E já estávamos a uma altitude de 1.050 m,  já com 30 Kms  percorridos e por volta das 5 horas da manhã.
A noite passou finalmente sem qualquer percalço de maior. Tudo correu como previsto, com muito cuidado não fosse uma queda deitar tudo a perder.
Não poderei descrever por palavras o amanhecer em prova. Absolutamente fantástico e indiscritível . O ar fresco, o perfume tão característico do campo, a luz, sim finalmente a luz natural. Maravilhoso !  Mas …  mal me lembrava do calor que aí vinha !
Agora é que a prova iria começar a sério. Por volta do final da manhã avistamos Marvão ao longe, ainda de uma encosta sobranceira. Não, pensei eu,  não vai ser possível subir àquela bonita vila amuralhada. Estávamos com aproximadamente  60 Km. Para mim foi o maior desafio da prova - a subida até Marvão. Trepámos inicialmente por estradão, passando a trilho muito técnico, depois pedra, pedra e mais pedra e por fim mato.
Foi uma subida tão dura que me levou a pensar em desistir. Sim . Sem vergonhas. Porquê ? Não se pode enunciar esta palavra ? Eu sei que para os “puristas” do desporto esta é uma palavra que não se encontra no seu léxico.  Mas esta ideia passou-me pela mente.  A meio da subida decidi “estacionar” na encosta para descansar e recuperar as forças . Só queria atingir a vila, neste caso o PAC 6  para solicitar a minha desistência e a consequente “boleia” de carro da Organização para Portalegre. Valeu-me o “Mister” ( Rui Ramalho) que a mais de 50 m me dizia “ … olha eu fico aqui à espera o tempo que for preciso … mas despacha-te lá …  !“ .
Para esta decisão ( a da desistência ) muito influenciaram questões de cadência inicial elevada e alimentação muito deficitária entre os abastecimentos e nos abastecimentos. Mas a prova inicial serve mesmo para isto – fazer o balanço do que correu menos bem e corrigir futuramente.   
Com muito pouca vontade , mas muita insistência do Rui Ramalho , juntando-se depois o José Farinha que me pediu para não me precipitar na decisão da desistência, lá continuei …  agora com uma temperatura algo elevada, principalmente em zonas de descampado.
Atingiu-se, então,  o PAC 7 com cerca de 70 Kms . A partir daqui parou a corrida. Do PAC 7 até ao final fomos a passo rápido. Já não me era possível correr. Ou melhor, ainda seria possível , mas sentia que a qualquer momento caía exausto.  Era um cansaço físico, aeróbico, mental. Eram as bolhas nos pés, muito por culpa das sucessivas passagens por cursos de água, ribeiros e pequenos riachos, onde inevitavelmente tínhamos que molhar os pés.
Entre os 10 e os 5 Km finais começa a nascer uma nova alma, um ânimo extra que nos traz as forças necessárias para atingirmos o Estádio. Avistamos ao longe Portalegre e pensei : … está feita !!! Finalmente vou acabar os 100 Km . Os últimos Kms são tão penosos que parecem uma eternidade. Na verdade fomos brindados com 102.5 Km e lá entrávamos no Estádio Eduardo de Sousa Lima em Assentos para a volta de consagração antes do insuflável da meta .   
Foi uma jornada épica dado que todos os atletas do Millenniumbcp – 10 ao todo e mais dois Amigos, o João Figueiredo e o José Mascarenhas – chegaram ao final.

PARABÉNS a todos pela sua grande prestação na referida prova de Trail.

Os agradecimentos muito especiais ao Milllenniumbcp e ao responsável pela modalidade de Trail  – Eduardo Ferreira – que nos disponibilizou o transporte  para Portalegre além de outras despesas inerentes a esta deslocação. Muito obrigado.

Por fim a classificação e os tempos efetuados :

Partiram 702 atletas tendo chegado 430 ao seu final.

Class. Geral       Nome                     Tempo de Chip

189
Miguel Cruz
17:39:27
234
Fernando Rodrigues
18:42:39
276
Pedro Cordas
19:40:44
302
Eduardo Rodrigues
19:59:18
303
Pedro Neves
19:59:25
304
Hélder Baptista
20:00:06
339
José Farinha
20:40:42
340
António Veloso
20:40:48
341
Rui Ramalho
20:40:49
384
Sandro Jordão
22:03:35

 
     


Antonio Rui Veloso